“O Brasil é um país privilegiado no cenário geopolítico atual”

 “O Brasil é um país privilegiado no cenário geopolítico atual”
Em evento do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac, o professor e cientista político HOC analisou os impactos das guerras e tensões comerciais globais e explicou como a nova configuração pode abrir oportunidades estratégicas para o país
As transformações que redesenham o varejo mundial e os efeitos diretos das disputas geopolíticas sobre os negócios estiveram no centro dos debates do evento Inovações e tendências no varejo, realizado na última terça-feira (3), no Hotel Senac Ilha do Boi, em Vitória. Promovido pelo Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac, o encontro reuniu empresários dos setores de bens, serviços e turismo, dirigentes sindicais e especialistas para uma imersão estratégica sobre o futuro do setor.
O ponto alto da programação foi a palestra do cientista político Heni Ozi Cukier, o professor HOC, referência nacional em geopolítica e economia internacional. Mestre em Resolução de Conflitos e Paz Internacional pela Universidade Americana, em Washington, ele comanda o maior canal de geopolítica do Brasil no YouTube e trouxe uma leitura abrangente sobre o cenário global e seus reflexos diretos na atividade empresarial.
HOC contextualizou o ambiente de instabilidade internacional, marcado pela guerra comercial entre Estados Unidos e China e pelas recentes tensões no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos e Irã. Segundo ele, embora os conflitos gerem incerteza, o Brasil ocupa hoje uma posição estratégica singular.
“Geograficamente, o Brasil é o país mais isolado do mundo, e dentro desse cenário geopolítico atual isso é maravilhoso. Se tivermos um cenário de conflito cada vez maior, nós estamos protegidos fisicamente”, afirmou. Para o professor, essa distância dos principais focos de tensão representa um ativo estratégico em tempos de instabilidade.
Ele destacou que o Brasil reúne tamanho territorial, mercado consumidor robusto e posição geográfica privilegiada. “Nós estamos em um lugar com o tamanho, com a população e com o mercado privilegiado. Ao mesmo tempo em que estamos longe dos problemas, passamos a nos tornar estratégicos para muita gente”.
HOC ressaltou ainda que a cadeia global de valor está sendo redesenhada e que o Brasil passou a ocupar papel central nessa reorganização. “China, Estados Unidos e Europa olharam para o Brasil e o colocaram como centro de gravidade. Isso cria uma oportunidade única, que aparece a cada cem anos”.
Para abordar sobre tendências do varejo internacional, o estrategista de Inovação e IA André Magno, representante da Fecomércio-ES na Câmara Brasileira de Tecnologia da Informação e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) subiu ao palco e detalhou o que tem sido debatido na NRF Retail’s Big Show, a maior feira de varejo do mundo promovida anualmente pela NRF, a Federação Nacional de Varejo dos EUA.
Ele destacou práticas com potencial de aplicação imediata no mercado brasileiro e citou exemplos de grandes empresas internacionais que têm inovado e estão crescendo em seus mercados. “Fanatics, uma gigante global de licenciamento esportivo, tem se destacado com técnicas como design e fabricação ágil. Por exemplo, após um jogo decisivo de futebol, a empresa vê uma oportunidade de negócio e lança uma nova camisa com um design diferente relacionado ao jogo para venda. Em seguida, investe em uma logística em tempo real, para que a entrega ocorra ainda mais rapidamente”.
Magno também reforçou a importância da IA nos negócios. “As IAs não recomendam os produtos que elas não confiam. Se seus dados, como preço e estoque, não forem confiáveis, a IA não indica seu produto nos resultados de busca. Outra forma importante de suporte da IA é dentro das empresas: há ferramentas que trabalham nos bastidores e apoiam os funcionários, permitindo foco total no cliente. São plataformas que indicam as preferências dos clientes, para que a venda seja mais assertiva”.
Já o coordenador do Observatório do Comércio do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, apresentou um mapeamento inédito das transformações no mercado de trabalho do Espírito Santo, que revelou quais são as carreiras com maior crescimento e potencial de expansão nos próximos anos.
Foram avaliados cinco grandes eixos estratégicos, classificados como as chamadas Economias do futuro, classificação desenvolvida pelo Senac Nacional. São eles: Economia Verde, Economia Criativa, Economia Digital, Economia do Turismo e Economia do Cuidado.
Entre as cinco economias do futuro, no Espírito Santo, a Economia Digital se destacou como a de maior dinamismo, de acordo com Spalenza. “Entre 2016 e 2024, o número de empregos formais no setor cresceu 75%, alcançando 10.222 vínculos em 2024. Além da expansão expressiva, trata-se de um conjunto de ocupações com elevada remuneração média, que chegou a R$ 6.533. Funções ligadas à tecnologia da informação, desenvolvimento de sistemas, programação e gestão digital lideram esse avanço”.
Ele explicou que o objetivo do levantamento é antecipar tendências e orientar tanto os trabalhadores quanto as instituições de ensino e as empresas sobre onde estão as melhores oportunidades. “O mercado de trabalho está passando por mudanças profundas, e quem se antecipa sai na frente”, explicou.
Relatório de Gestão
Durante o evento, foi feita a entrega do Relatório de Gestão do Sistema Fecomércio-ES – Sesc e Senac. O presidente da entidade, Idalberto Moro, comentou sobre a importância da prestação de contas de todo o mandato por meio do Relatório.
“O Relatório é essencial para vermos os avanços, por meio de nossas ações, na economia, na parte assistencial, na educação e no turismo, segmentos que nossa entidade tem como missão promover e desenvolver”.
Ele também comentou sobre a necessidade do debate frequente sobre o varejo e o cenário socioeconômico e geopolítico nacional e internacional. “Esse encontro trouxe pautas atuais para os empresários, novos cenários para o varejo, já que tudo muda muito rapidamente e precisamos nos reinventar o tempo todo. Há novas maneiras de se trabalhar, de se comercializar, de atender o consumidor e nós, que somos empresários do comércio, estamos muito atentos a isso”.

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