Procuradoria da Mulher debate legado e futuro das parteiras
Preservar, reconhecer, imortalizar e continuar o trabalho carregado de saber ancestral de parteiras e benzedeiras. A Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa (Ales) promoveu uma roda de conversas nesta quarta-feira (18) reunindo mulheres envolvidas com a temática para discutir e pensar maneiras de valorização das práticas.
A procuradora da Mulher, deputada Iriny Lopes (PT), destacou a importância da conversa sobre a necessidade de criar memórias e ampliar o reconhecimento de práticas que destoam e podem contrapor marcas de violências estruturais como a obstétrica.
Legado
Abrindo a discussão, a convidada Keila Gava apresentou o livro “Dona Lelé – A Parteira: Relatos do Partejar no interior do Espírito Santo”. Na obra, Keila resgata a história da própria mãe, a parteira Helena Santolin Gava, baseando-se em manuscritos que registraram centenas de partos realizados.
Na sequência, a parteira tradicional Maria Laurinda Adão ganhou a atenção do público com o relato de sua longa trajetória, explicou como a sabedoria para o ofício foi passada de mulher para mulher da família. Uma referência, Maria Laurinda apresentou sua já “aposentada” malinha com os equipamentos e remédios homeopáticos que a acompanharam por anos.
Futuro
Baiana de Camaçari, a jovem parteira Joana Mãe d’Água emocionou o auditório relatando a sua própria história e a busca para exercer a função. Joana nasceu em um hospital “com muita violência”. Das violências, a central, foi ter sido trocada de família e só descobrir 30 anos depois que a sua verdadeira raiz era um lar de parteiras.
“Eu não pude aprender com as minhas avós, mas eu pude aprender com mulheres que apareceram e surgiram no meu caminho porque é assim que é, vamos passando o conhecimento através da oralidade. O conhecimento é esta ancestralidade de assistir as nossas irmãs parirem, é assim que ela se mantém viva”.
Joana mora no ES há oito anos, pois buscou um local onde talvez encontrasse maior número de pessoas ainda sobrevivendo do partejar, mas acabou sendo logo demandada para a missão e já soma 48 partos. Ela é a primeira parteira tradicional reconhecida pelo SUS no ES, mas tal “reconhecimento” sofreu uma espécie de boicote, por exemplo, durante a pandemia de Covid-19, para registrar os bebês dos quais ela fez o parto, ocultando o tamanho da assistência na saúde do país.
A convidada enfatizou que a função deve ser encarada como um lugar de luta para mais de 60 mil parteiras no Brasil. Ela ainda defendeu um cadastro unificado.
“Somos muitas e de muitas linguagens. Existem parteiras contemporâneas, parteiras tradicionais livres, parteiras indígenas. São muitas variantes, então (deveria haver) cadastro unificado de todas para que a gente possa ter acesso à Declaração de Nascidos Vivos, para que não haja subnotificação”.
A roda também discutiu a função da homeopatia transgeracional com a convidada Ana Cecília. Já o papel do registro de memórias foi destacado pelos relatos da fotógrafa e especialista em imagem e mídia Zanete Dadalto.
A psicóloga doutora em saúde coletiva Nayara Rudeck refletiu o risco de desaparecimento das parteiras, principalmente pela violência institucional do Estado, que ainda limita o acesso a formulários de Declaração de Nascido Vivo (DNV) com entraves e impasses ainda deliberadamente sustentados.
O evento contou ainda com apresentação musical da artista Aline Maria no violão – com a parteira Maria Laurinda Adão acompanhando no atabaque, e a parteira Joana Mãe D’Água colocando a dança em algumas músicas.
Debate
A roda abriu espaço para participação do público discutir saberes e práticas tradicionais, os principais desafios atuais, principalmente o preconceito, além da necessidade de buscar uma valorização e apoio institucional, dentro das políticas públicas.
A deputada Iriny Lopes alertou para duas confirmações apresentadas na roda, que falou ao mesmo tempo “de cultura e de saúde”. “Se não fizermos algo, a tentativa de apagamento será vitoriosa”, afirmou. O mandato deverá trabalhar uma proposta para incluir na legislação estadual o reconhecimento de parteiras mestras como patrimônio cultural. Já o segundo ponto é lutar por um reconhecimento em âmbito nacional para que o próprio SUS ou os hospitais particulares compreendam as funções, além de ajudar a perpetuar o conhecimento com repasses.
Exposição
Após a reunião no auditório, os participantes foram apreciar a exposição fotográfica “Guardiãs do Nascimento: um pacto de continuidade”, com registros do trabalho feito por jovens parteiras tradicionais de todo o país.
