Ales: empatia e liderança consolidam mulheres em postos de comando
Elas estão em quase 40% dos cargos de gestão e aliam a qualificação técnica à sensibilidade feminina para liderar equipes
Em média, as mulheres são a metade da população mundial, variando entre as menores proporções, em torno de 46% em países como Índia e China, e as maiores, na Europa Oriental, especialmente na Rússia, onde chegam a quase 54%. No Brasil, o Censo mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta para 51,5% de mulheres ante 48,5% de homens.
Muita coisa mudou, mas muita ainda precisa avançar para que as mulheres sejam representadas com equidade em posições de liderança da sociedade, na mesma proporção do que elas representam na demografia global.
A presença de mulheres em cargos de chefia tem aumentado ao longo dos anos, acompanhando o crescimento da participação feminina no mercado de trabalho e o maior acesso à educação. Cada vez mais, mulheres assumem funções estratégicas e de liderança em empresas, instituições públicas e organizações de diferentes setores.
Representatividade na Ales
A Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) caminha para garantir cada vez mais representatividade feminina nos cargos de chefia e liderança. As servidoras estão em contingente um pouco menor que o masculino (são 699 contra 715 homens). Atualmente, elas ocupam 39,6% dos 197 cargos de liderança na estrutura administrativa da Casa. Percentual discretamente maior que a média nacional. Dados do IBGE indicam que, em 2022, havia 39,3% de mulheres ocupando cargos gerenciais no Brasil, um aumento de 3,3 pontos em relação a 2019.
Conforme dados da Secretaria de Gestão de Pessoas (SGP) da Ales, as mulheres estão em 24 dos 54 cargos de Coordenação; 7 dos 19 de Diretoria; três entre as sete Secretarias; duas das cinco Subsecretarias; 5 das 12 Subcoordenadorias; 7 das 21 Subdiretorias; e 30 das 76 funções de Supervisão.
Entre as mulheres que estão em posição de liderança, uma delas foi a única, até agora, a ocupar o cargo de diretora-geral nos 190 anos da Assembleia Legislativa. Com mais de 30 anos na Casa, Tatiana Almeida é bacharel em Direito e já ocupou várias funções de comando.
Atualmente, Tatiana responde pela Diretoria de Redação, setor responsável pela qualidade final das proposições que passam pelo Plenário, bem como por todas as publicações do Diário do Legislativo, sob a ótica da Lei Complementar 95/1998, que rege a elaboração de leis. “Buscamos excelência para que a Assembleia sempre cumpra seus objetivos como legisladora”, disse.
Com menos tempo de Casa, a engenheira civil Karla Rodrigues Coelho dos Santos, é servidora há dois anos na Assembleia Legislativa, onde é subdiretora de Manutenção e Execução de Obras. Chegou como assessora sênior. Um dia depois, assumiu o cargo de supervisora de Manutenção e, após um ano, galgou o cargo na Diretoria de Infraestrutura, onde seu trabalho é prevenir danos na infraestrutura do prédio da Assembleia.
Apesar da juventude, Karla alia a formação – é engenheira pela Multivix, técnica em Mecânica pelo Senac e técnica em Edificações pela Cedtec – à experiência de campo. Graduou-se em 2020 e foi uma das engenheiras da obra que é a menina dos olhos do município de Cariacica: a Nova Orla.
“Eu era responsável pelas obras-mar. Um dia o presidente Marcelo Santos perguntou a um amigo em comum se conhecia uma engenheira civil que tivesse liderança e esse amigo me indicou. Só tinha visto o presidente rapidamente uma vez. Fiz uma entrevista com ele e fui escolhida”.
Mãe solo de dois meninos (um de 4 e outro de 9 anos), Karla ainda é responsável pelos cuidados com a mãe, que é doente e mora com ela: “Trabalho desde os 18 anos de idade, fui despachante em escritório de contabilidade, garçom, atendente de banco como terceirizada, já trabalhei como assistente de infraestrutura em uma rede de supermercados”.
Na Subdiretoria de Manutenção da Assembleia Legislativa, lidera 17 servidores, dos quais 13 são homens: “Meu ambiente de trabalho sempre foi muito masculino e isso requer muita firmeza. O homem às vezes tem dificuldade quando a gente precisa ser mais incisiva, mas a mulher tem por característica ser mais cuidadora, acolhedora, mais empática. A liderança masculina é mais direta, racional; a feminina, na maioria das vezes, envolve essa empatia, sem abrir mão da firmeza”.
Tatiana Almeida confirma que “a mulher, quando ocupa o cargo de chefia, sempre tem desafios a mais, mas eles existem para serem enfrentados. Quando se tem consciência da capacidade e se está pronto para ocupar o cargo, a mulher vai derrubando as barreiras. Já ocupei outros cargos, inclusive de decisão, e me vi, sim, diante de situações em que tive de tomar decisões e que foram mais complexas”.
A diretora de Redação considera que muitas questões vão além de gênero. “A gente precisa acreditar no nosso trabalho. A mulher vai, sim, passar por questões que o homem não passaria, seja em cargos ou na vida. Se o cargo tem poder de decisão, a mulher toma uma decisão e recebe questionamentos que um homem não receberia. Mas não podemos colocar isso como obstáculo para avançarmos. Quando a oportunidade vier, abrace”.
Para Tatiana, é necessário que a mulher ocupe espaços majoritariamente e tradicionalmente reservados aos homens. “A mulher tem a oportunidade de colocar um olhar diferenciado, com mais sensibilidade e empatia, mas isso não pode ser ausência de força. Esse olhar diferenciado é importante em todas as esferas. Historicamente, as mulheres não ocupam proporcionalmente seu espaço, mas estamos avançando”.
Múltiplos papéis
E como dar conta de uma jornada dupla ou até tripla? “Muitas vezes a gente não vai dar conta de fazer com perfeição uma liderança no trabalho e a liderança da família. Já tive que trabalhar em feriados e férias, mas está tudo bem. Ser servidora, mãe e filha, porque muitas vezes temos que cuidar dos pais, conduzir isso é possível, desde que a gente não se cobre tanto. Nada impede, porém, que eu dê tempo de qualidade ao meu filho. Tem que saber lidar com isso e não absorver como culpa. É uma questão de equilibrar, porque a mulher é uma potência e tem muita força”, avalia Tatiana.
Visão compartilhada por Karla Santos. “Você vai ter que fazer uma escolha. Você quer se destacar profissionalmente ou viver a vida de mãe? Financeiramente, meus filhos dependem de mim, então minha escolha é clara, ocupar cargo de liderança para dar segurança financeira a eles. Se não tem essa necessidade, não vejo problema em a mulher se dedicar mais à família, porque se eu pudesse fazer isso, me dedicar à família, faria isso”.
Entretanto, Karla revela não se arrepender da escolha que fez. “Não temo pelo futuro porque quando estou com meus filhos estou em tempo total. O segredo para a mulher que trabalha é: quando estiver presente com os filhos, estar presente o máximo possível. Meu ideal particular é forjar meus filhos como os melhores homens que possa entregar à sociedade”.
Karla admite que faz o estilo “general”. Diverte-se em se lembrar que chegava na obra da Nova Orla de Cariacica em horários incertos e isso provocava correria no canteiro. “Aqui é a mesma coisa, eu sei. Quando me aproximo, alguém diz: a Karla vem aí. Mas é sem terror. Trabalhamos como um time. Mudamos a filosofia da manutenção corretiva para preventiva, porque é muito complexo cuidar de um prédio como esse. Precisamos evitar o gasto público fazendo ações preventivas”.
Tanto Tatiana Almeida quanto Karla Santos admitem que a visão de liderança da mulher é diferente do homem, mas entendem que quanto mais mulheres no comando mais humanizado fica o ambiente. “A mulher tem uma percepção mais humanitária, a maioria tem esse perfil cuidador. É nosso instinto de mãe. Quando os homens entendem e aceitam isso, a gente harmoniza e o fluxo acontece”, finaliza Karla.
