Corridas de rua ganham espaço, movimentam a economia e contribuem para uma população mais saudável
Além de reunir milhares de participantes, expansão das provas impulsiona o comércio, fortalece o turismo e pode colaborar para a redução dos gastos provocados pela inatividade física
As corridas de rua deixaram de ser uma atividade restrita aos atletas profissionais. Em diferentes cidades brasileiras, é cada vez mais comum encontrar ruas ocupadas, principalmente nos fins de semana, por pessoas de diferentes idades participando de provas de 5, 10, 21 ou 42 quilômetros.
E essa percepção de crescimento é confirmada pelos números. De acordo com a Confederação Brasileira de Atletismo, o Brasil passou de 2.186 corridas em 2023 para 2.827 eventos em 2024 — aumento de aproximadamente 29% em apenas um ano.
Os dados abrangem provas inseridas no calendário considerado pela entidade e, portanto, não representam necessariamente todos os eventos promovidos no país. Ainda assim, evidenciam que a corrida de rua vive um momento de forte expansão.
Muito além da linha de chegada
Por trás de cada largada existe uma ampla cadeia econômica. A realização de uma corrida envolve empresas organizadoras, profissionais de educação física, equipes de saúde, segurança, montagem de estruturas, comunicação, fotografia, sonorização, cronometragem, transporte, alimentação e produção de medalhas, camisetas e outros materiais.
Há também o consumo feito diretamente pelos participantes. Tênis, roupas esportivas, relógios, aplicativos, suplementos, assessorias de corrida e inscrições formam um mercado que acompanha o aumento do número de corredores.
Uma estimativa setorial divulgada em 2025 apontou que o mercado brasileiro de corridas de rua já movimentava cerca de R$ 1,1 bilhão. O cálculo, apresentado pela plataforma Ticket Sports e publicado pelo Times Brasil, deve ser entendido como uma projeção do próprio setor, e não como um levantamento oficial de toda a economia nacional.
Mesmo assim, o impacto é visível. Quando uma competição recebe participantes de outras cidades, hotéis, restaurantes, postos de combustíveis, estacionamentos e serviços de transporte também são beneficiados. A corrida passa, assim, a integrar o chamado turismo esportivo, capaz de movimentar a economia local e divulgar o município como destino de eventos.
Saúde física, mental e convivência
A popularização das corridas também representa uma oportunidade de estímulo à atividade física. A modalidade apresenta uma característica importante: pode ser praticada em espaços públicos e permite que cada pessoa evolua de acordo com suas condições, começando, por exemplo, com caminhadas ou alternando caminhada e corrida.
Segundo o Guia de Atividade Física para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, a prática regular de atividade física ajuda a prevenir doenças como hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Também favorece o sono, reduz o estresse e os sintomas de ansiedade e depressão e melhora a disposição e a qualidade de vida.
As provas ainda fortalecem vínculos sociais. Grupos de corrida e assessorias esportivas criam espaços de convivência, incentivo e pertencimento. Para muitos participantes, o objetivo deixa de ser apenas completar um percurso e passa a envolver a construção de uma rotina mais ativa.
É importante, porém, que a corrida seja praticada de maneira responsável, respeitando os limites individuais. Pessoas sedentárias ou com alguma condição de saúde devem buscar orientação profissional antes de iniciar atividades mais intensas.
Uma possível aliada do SUS
O crescimento das corridas também abre uma discussão sobre prevenção e gastos públicos. Doenças crônicas relacionadas à inatividade física representam uma parcela relevante das internações e dos custos do Sistema Único de Saúde.
Um estudo publicado na Revista de Saúde Pública estimou que aproximadamente R$ 276 milhões dos gastos do SUS com determinadas internações, em 2013, poderiam ser atribuídos à inatividade física. Outra pesquisa, com dados de 2017, estimou em US$ 83 milhões os custos de internações por doenças crônicas atribuíveis à insuficiência de atividade física no país.
Na área oncológica, o Instituto Nacional de Câncer calculou que R$ 94,7 milhões dos gastos federais com atenção ao câncer, em 2018, estavam relacionados à inatividade física no tempo livre. O Instituto estima que uma redução de 10% no sedentarismo poderia gerar economia de R$ 20,4 milhões no tratamento de câncer até 2040.
Esses dados não significam que a realização isolada de uma corrida reduza imediatamente as despesas do SUS. O benefício econômico depende de as provas estimularem a população a adotar uma rotina ativa e permanente. A economia surge no longo prazo, por meio da prevenção de doenças, da diminuição de internações e, em alguns casos, da menor necessidade de medicamentos e tratamentos.
Crescimento que também exige planejamento
A expansão do setor traz desafios. As provas precisam contar com organização adequada, apoio de equipes de saúde, hidratação, sinalização, segurança viária, respeito aos moradores e planejamento para reduzir impactos no trânsito e no meio ambiente.
Também é necessário ampliar o acesso. Taxas elevadas de inscrição e o custo de equipamentos podem afastar parte da população. Por isso, corridas públicas, projetos comunitários, grupos gratuitos e ações promovidas em bairros podem tornar os benefícios da atividade física mais democráticos.
Quando bem planejadas, as corridas de rua unem esporte, saúde, turismo, lazer e desenvolvimento econômico. Mais do que distribuir medalhas, elas podem estimular uma nova relação das pessoas com os espaços públicos e com o próprio cuidado.
O desafio agora é transformar o entusiasmo das grandes provas em um hábito que permaneça depois da linha de chegada. Se isso acontecer, os ganhos poderão ser sentidos não apenas pelos corredores, mas também pelo comércio, pelas cidades e por todo o sistema público de saúde.
