12 de outubro: por que o Brasil comemora o Dia das Crianças no feriado de Nossa Senhora Aparecida?

 12 de outubro: por que o Brasil comemora o Dia das Crianças no feriado de Nossa Senhora Aparecida?

Celebradas na mesma data, as duas comemorações têm origens diferentes. O Dia das Crianças foi criado há mais de um século, mas só ganhou popularidade décadas depois, impulsionado pelo comércio.

Nesta segunda-feira, 12 de outubro de 2026, o Brasil celebra duas datas importantes: o Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do país, e o Dia das Crianças. Embora as comemorações aconteçam no mesmo dia, suas origens são distintas e revelam aspectos interessantes da história brasileira.

Ao contrário do que muitos imaginam, o feriado nacional de 12 de outubro não foi criado por causa do Dia das Crianças, mas em homenagem a Nossa Senhora Aparecida. A coincidência das datas acabou consolidando uma tradição que reúne fé, celebrações familiares e atividades voltadas ao público infantil.

Como surgiu o Dia das Crianças?

A origem da comemoração remonta à década de 1920, quando começaram a ganhar força no Brasil os debates sobre a necessidade de proteção à infância.

Em 1922, o Rio de Janeiro recebeu encontros dedicados à proteção das crianças, reunindo representantes interessados em discutir questões relacionadas à saúde, à educação e ao desenvolvimento infantil.

Inspirado por essas discussões, o deputado federal Galdino do Valle Filho apresentou uma proposta para instituir uma data nacional dedicada às crianças.

A iniciativa foi oficializada em 5 de novembro de 1924, quando o presidente Arthur Bernardes sancionou o Decreto nº 4.867, estabelecendo o dia 12 de outubro como a Festa da Criança.

Naquele momento, a intenção era chamar a atenção da sociedade para a situação da infância brasileira, especialmente em uma época marcada pelo trabalho infantil, pela pobreza e pelas dificuldades de acesso à educação.

Portanto, diferentemente da imagem comercial que a comemoração adquiriu posteriormente, sua origem estava relacionada à necessidade de reconhecer e proteger as crianças.

Como a comemoração virou uma tradição de presentes?

Apesar de ter sido instituído oficialmente em 1924, o Dia das Crianças demorou décadas para se popularizar no Brasil.

Foi principalmente a partir da década de 1950, com maior impulso nos anos 1960, que campanhas publicitárias promovidas pela indústria de brinquedos e por empresas de produtos infantis transformaram a data em uma importante ocasião comercial.

Entre as iniciativas mais conhecidas está a campanha da Semana do Bebê Robusto, associada à fabricante de brinquedos Estrela e à Johnson & Johnson.

Com o sucesso das ações publicitárias, outras empresas passaram a investir em promoções e campanhas relacionadas à infância.

Aos poucos, o dia 12 de outubro se consolidou como uma ocasião para presentear crianças, organizar festas e promover atividades recreativas.

O comércio, portanto, não criou o Dia das Crianças, mas teve papel decisivo na transformação da data em uma das comemorações mais populares do calendário brasileiro.

Por que 12 de outubro é feriado nacional?

A explicação está na tradição religiosa brasileira.

Segundo a história da devoção católica, em 1717, pescadores encontraram uma imagem de Nossa Senhora nas águas do Rio Paraíba do Sul, no interior de São Paulo. O episódio deu origem à devoção a Nossa Senhora Aparecida, que se tornou um dos mais importantes símbolos religiosos do país.

Em 1930, o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil.

Entretanto, somente em 30 de junho de 1980, durante o governo do presidente João Figueiredo, foi sancionada a Lei nº 6.802, que declarou o dia 12 de outubro feriado nacional em homenagem à padroeira.

Assim, o Dia das Crianças já existia havia 56 anos quando o feriado religioso foi instituído.

As duas celebrações passaram a compartilhar uma mesma data, embora tenham surgido por razões completamente diferentes.

Mais que presentes: uma data para refletir sobre os direitos das crianças

Passados 102 anos desde a criação do Dia das Crianças, a comemoração também representa uma oportunidade para refletir sobre os desafios que ainda atingem a infância brasileira.

A Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, estabeleceram a proteção integral e a prioridade absoluta dos direitos de crianças e adolescentes.

Entre esses direitos estão educação, saúde, alimentação, segurança, lazer, dignidade e convivência familiar e comunitária.

Entretanto, a existência de garantias legais não significa que todas as crianças tenham acesso efetivo a elas.

A desigualdade social, a violência, o trabalho infantil e as dificuldades de acesso a serviços essenciais demonstram que a proteção da infância continua sendo uma responsabilidade coletiva.

Mais do que oferecer brinquedos, celebrar o Dia das Crianças significa reconhecer que toda criança tem direito de viver plenamente sua infância.

Afinal, uma sociedade que valoriza suas crianças não demonstra esse compromisso apenas em uma data comemorativa, mas diariamente, por meio de políticas públicas, educação de qualidade, proteção e respeito.

Neste 12 de outubro, entre manifestações de fé, encontros familiares e comemorações infantis, permanece uma reflexão: o melhor presente que uma sociedade pode oferecer às suas crianças é garantir que elas tenham o direito de ser crianças.

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