IA muda a preparação para o Enem, mas estudantes terão de provar o que aprenderam sem tecnologia
ChatGPT, Gemini e outras ferramentas já fazem parte da preparação dos estudantes, que recorrem à tecnologia para pesquisar, revisar conteúdos e tirar dúvidas. O desafio é transformar as respostas digitais em conhecimento diante de prova feita no papel
A poucos dias de encarar o Enem, muitos estudantes podem dizer que tiveram um professor disponível a qualquer hora, capaz de explicar uma fórmula de matemática de diferentes maneiras, resumir um capítulo de História, criar exercícios personalizados e até apontar problemas em uma redação.
Esse professor, porém, não tem sala de aula, não escreve no quadro e nem sempre acerta. Estamos falando da IA. Para uma geração que incorporou ferramentas como ChatGPT e Gemini à rotina de estudos, a preparação para o exame ganhou novos caminhos. Mas, na hora da prova, a tecnologia ficará do lado de fora.
A presença da inteligência artificial generativa na educação deixou de ser uma tendência distante para se tornar parte do cotidiano de crianças e adolescentes. No Brasil, os números ajudam a dimensionar essa mudança. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br, ligado ao Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), identificou que 59% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos utilizam IA generativa para fazer pesquisas escolares ou estudar. Entre os adolescentes de 15 a 17 anos, faixa que abrange boa parte dos estudantes que se preparam para o Enem, o percentual chega a 68%.
Outro retrato dessa realidade aparece na pesquisa TIC Educação 2024, divulgada em 2025. O estudo aponta que sete em cada 10 estudantes brasileiros do Ensino Médio, usuários de internet, utilizam ferramentas de IA generativa para pesquisas escolares.
Entre as ferramentas mais conhecidas nesse cenário estão o ChatGPT, da OpenAI; o Gemini, do Google; e o Copilot, da Microsoft. Elas funcionam como assistentes de conversação e podem apoiar pesquisas, explicações, sínteses e exercícios.
Para Thaís Alvim, supervisora pedagógica da Escola São Domingos, a tecnologia pode ampliar as possibilidades de aprendizagem, desde que o estudante continue participando ativamente do processo.
“A inteligência artificial permite que o estudante explore um conteúdo de diferentes maneiras, retome conceitos e esclareça dúvidas no próprio ritmo. Mas é importante compreender que a ferramenta deve funcionar como apoio ao processo de estudo, e não como substituta da construção do conhecimento. O aluno precisa participar ativamente, questionar as respostas e desenvolver a capacidade de pensar por conta própria”, avalia.
O paradoxo da preparação digital para a prova analógica
A popularização da IA coloca os estudantes diante de uma situação curiosa: eles podem contar com uma tecnologia capaz de explicar e corrigir durante meses de preparação, mas precisarão demonstrar o que aprenderam em uma avaliação individual, sem acesso a telas ou assistentes digitais.
Um levantamento internacional ajuda a observar a frequência desse comportamento. Dados do PISA 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indicam que 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos utilizam ferramentas de inteligência artificial para estudar pelo menos uma vez por semana. O percentual é próximo da média de 46% registrada entre os países participantes. O estudo também mostra que a tecnologia já aparece em diferentes etapas do trabalho escolar, como pesquisas preliminares, resumos e elaboração de rascunhos.
Para Vivian Fafa, orientadora educacional da Escola São Domingos, é importante que os estudantes compreendam a diferença entre encontrar uma resposta e assimilar o conhecimento.
“O estudante precisa perceber que ter acesso a uma resposta não significa, necessariamente, ter aprendido. É importante que ele consiga se apropriar do conteúdo, elaborar suas próprias ideias e reconhecer o que realmente compreendeu. No Enem, não haverá uma ferramenta para conduzir o raciocínio. Por isso, a autonomia precisa ser desenvolvida durante toda a preparação”, destaca.
Segundo a orientadora, o desafio não está necessariamente em utilizar ou não a IA, mas em evitar que a facilidade de obter respostas seja confundida com aprendizagem. Para o Enem, isso significa manter o treinamento com questões impressas, simulados sem consulta, interpretação de textos e exercícios resolvidos individualmente. “A prática de escrever à mão também merece espaço na preparação, especialmente para que o estudante desenvolva ritmo, organização e segurança na produção textual”.
O preparo que nenhuma ferramenta entrega
Se a inteligência artificial amplia o acesso à explicação, ela não substitui o que a prova realmente mede: a formação construída ao longo de anos. Para Henrique Romano Carneiro, diretor-executivo da Escola São Domingos, a preparação para o Enem não pode ser reduzida ao suporte de uma ferramenta. “O Enem avalia o que o estudante se tornou intelectualmente ao longo da vida escolar. A inteligência artificial pode ajudar a esclarecer uma dúvida, mas não constrói disciplina, rotina de estudo nem rigor acadêmico. Esses elementos se desenvolvem na repetição diária, na leitura profunda e no enfrentamento do esforço”, afirma.
Na avaliação do diretor, esse processo começa muito antes do Ensino Médio. Na ESD, a estrutura escolar e pedagógica, das aulas ao material didático, da rotina aos laboratórios, é pensada para que o aluno compreenda, desde cedo, que aprender exige constância e dedicação. “Não se trata de uma preparação de última hora. É um aprendizado que atravessa décadas na trajetória de um estudante e que, na história da humanidade, atravessa milênios com bases muito semelhantes: ler, pensar, praticar, errar e persistir. Isso não vai mudar, independentemente da tecnologia”, pondera.
Essa lógica ajuda a compreender o desempenho da instituição. Em 2025, a ESD ficou em 1º lugar geral no Enem no Espírito Santo e em 75º no Brasil, entre mais de 25 mil escolas avaliadas. Um dado chama atenção: os alunos da 3ª série de 2025 estudaram, em média, 10,7 anos na escola. Para a direção, o resultado é reflexo de uma formação contínua, sustentada por valores, rotina e rigor acadêmico ao longo de toda a trajetória, e não de uma estratégia isolada de véspera.
A inteligência artificial veio para ficar, e ignorá-la seria um equívoco. Usada com critério, ela pode esclarecer dúvidas, oferecer novos exemplos e tornar o estudo mais dinâmico. Mas, no dia da prova, o que estará em jogo não é a qualidade da ferramenta, e sim a consistência da formação de quem a utilizou.
Como lembram os especialistas, a tecnologia pode abrir caminhos, mas é a disciplina, a leitura, a escrita e o raciocínio construídos com paciência que sustentam o estudante diante de uma folha de papel. Mais do que o suporte da IA, o que prepara para o Enem, e para a vida, é aquilo que nenhum algoritmo pode construir para ninguém: o hábito de aprender.
