Debate provoca homens a agir no combate à violência contra a mulher
O papel dos homens no combate às raízes estruturais da violência contra a mulher foi foco de rodas de conversa realizadas na Assembleia Legislativa (Ales) nesta quinta-feira (26). Com o tema “Todos por todas: pela garantia da vida de meninas e mulheres”, o debate buscou provocar e sensibilizar os homens a refletir sobre comportamentos que perpetuam a violência de gênero.
A mesa de abertura teve a participação da ministra das Mulheres do governo federal, Márcia Helena Carvalho Lopes. Ela refletiu que a sociedade precisa entender o fundo estrutural, prático e cultural da violência machista e misógina em sua formação e que “faz todo mundo sofrer”.
“A juventude, segundo uma pesquisa que saiu, que 30% dos meninos jovens dizem que as mulheres têm sim que ser submissa a eles. Se um jovem está dizendo isso, o que vai ser? Ser submissa significa não ter vontade própria, não ter liberdade”.
Também participaram da primeira mesa a deputada estadual Iriny Lopes (PT), a secretária estadual de Mulheres, Jacqueline Moraes, e a vereadora de Vitória, Karla Coser (PT).
A secretária estadual reafirmou a necessidade de “desconstruir uma masculinidade que está matando as mulheres”, com os homens deixando de serem covardes por não aceitarem mulheres felizes e livres, mas fazendo parte da luta pela cultura de paz, ficando incomodados e quebrando “pacto de silêncio”.
Mesa dos homens
Na sequência, homens formaram mesa para provocar os presentes que “a violência contra a mulher é problema nosso”. Participaram dessa roda: o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCEES), Domingos Taufner; o pesquisador em políticas de gênero e raça, João José Barbosa Sana; o vice-presidente da OAB/Vila Velha, José Eduardo Coelho Dias; e o padre Paulo Sergio. A mesa foi mediada pelo deputado estadual João Coser (PT).
Para o conselheiro Taufner, os homens são parte do problema, mas podem ser parte da solução. Ele alertou que a masculinidade é um tema difícil, árido, e que a situação está fora de controle, com uma crescente misoginia.
O debatedor refletiu ainda que casos de feminicídio seguidos de suicídio e casos de homens que invadem delegacias ou encaram forças policiais, sinalizam que apesar de necessária, só a punição não irá conter o padrão de violência masculina.
Já o advogado José Eduardo Coelho Dias lembrou que até 1962 a mulher não tinha o direito, sem autorização expressa do marido, de administrar patrimônio ou até mesmo escolher sua profissão. Naquele ano foi sancionado o Estatuto da Mulher Casada (Lei 4.121) retirando-a da condição de civilmente incapaz.
“Nós fomos formatados numa sociedade cruelmente machista. Eu aprendi a ser machista desde novinho, todo mundo aqui aprendeu que o natural é o machismo. Passou da hora, repensar aumento de pena? Não adianta. Pena de morte? Não tem medo da morte, da polícia, não tem medo de nada”, refletiu o representante da OAB.
Debate
Após as primeiras reflexões da mesa, o evento abriu espaço para os homens presentes colaborarem com o debate. Eles compartilharam suas percepções das próprias histórias, jornadas como homens, filhos, esposos, pais, colegas de trabalho. Ora apontando onde está o próprio machismo, a própria violência; ora refletindo o que já foi ensinado ou aprendido de positivo com as mulheres com quem convivem ao longo dos anos.
Servidores da Polícia Rodoviária Federal (PRF) também participaram da reunião e reafirmaram solidariedade à então comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, assassinada na última segunda-feira (23) pelo namorado, um policial rodoviário federal. No microfone, representantes da PRF declararam repúdio ao fato.

