Teatro e jornalismo, um convite para agir

 Teatro e jornalismo, um convite para agir

Teatro e jornalismo. Duas formas de expressar a realidade cujas raízes podem remeter aos primórdios da humanidade. As possibilidades cênicas a partir da interseção entre as duas áreas vêm sendo investigadas pelo menos desde o final do século 19. Se tal relação não é nova, como comunicar algo relevante, seja através da arte, seja através do jornalismo, quando todos comunicam tudo, o tempo inteiro?

 

Apesar de terem pressupostos distintos quanto ao trato da realidade, teatro e jornalismo possuem função social. Podem servir tanto à instauração e manutenção de um regime autoritário, quanto à propagação de valores democráticos, se exercidos de forma livre. Ao longo da história, suas interseções encontraram ecos no teatro documentário de Piscator, no teatro épico de Brecht e no teatro jornal de Augusto Boal, cujas poéticas fizeram do palco um instrumento de reflexão crítica da sociedade.

 

Com a Tem Conteúdo & Produções Artísticas, encontrei nessa junção a possibilidade de conciliar duas profissões. Na licenciatura em teatro, as congruências deste com o jornalismo se tornaram meu campo de estudo. Como essa relação afeta quem as faz e quem as consome? Existe potencial transformador em sua combinação? Os indícios que venho encontrando mostram que sim. O último deles foi o novo trabalho do Grupo Teatral Caparaó, “Capitu e Bentinho”, que estreou em abril no Teatro Carlos Gomes e volta a se apresentar por lá nos dias 29 e 30 de agosto, às 19h30.

 

Contemplada em edital da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES), a montagem reflete um bom momento para os artistas do nosso Alegre, no sul do Estado, onde a companhia está sediada. Recentemente, foram anunciados recursos da ordem de R$ 4,6 milhões para reforma do teatro da cidade, o Virgínia Santos.

 

Com dramaturgia de Danyel Sueth, o espetáculo revisita o clássico Dom Casmurro e cumpre a missão de adaptar a obra machadiana, dialogando com um público que, não necessariamente, é versado em teatro ou literatura. Jovens do ensino médio, por exemplo, tiveram a oportunidade de conhecer, em detalhes, um texto que serviu de ponto de partida para uma discussão atual e urgente.

 

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que 2025 concentrou o maior número de casos de feminicídio desde a tipificação da lei, em 2015. Já o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou que, apenas em janeiro de 2026, houve aumento de 3,5% nos casos de feminicídio na comparação com um ano antes. Não é possível, portanto, olhar para o original com outro olhar que não seja anacrônico.

 

Esse, talvez, tenha sido o maior acerto do Grupo Teatral Caparaó com a nova montagem, num ímpeto de discutir questões contemporâneas que remete à sua gênese. Na comédia “A Divina Herança” (2010), a companhia já demonstrava esse ávido desejo, debatendo por outros caminhos estéticos a mercantilização da fé. Em “A Sós” (2021), outro trabalho que tive a oportunidade de assistir, as noções de público e privado se misturavam através de personagens que se desconheciam intimamente.

 

Não cabe, em 2026, aceitar que Capitu termine seus dias exilada em Portugal, mandando cartas para um amado inseguro que, por questões dele, não acredita em sua palavra. Não cabe, em 2026, debater se Capitu traiu ou não traiu Bentinho. Cabe, sim, refletir sobre as estruturas que sustentam discursos misóginos que atribuem, ao homem, o sentimento de posse sobre um corpo feminino que não é o dele.

 

“A arte é o conhecimento que se transmite através dos sentidos”, nos disse Boal. É nesse rumo que vemos a companhia caminhar. “Capitu e Bentinho” marca esse processo de amadurecimento, numa busca por identidade e linguagem próprias. É, por exemplo, o terceiro dueto da companhia. Dessa vez dividindo o palco com Bruna Frari, atriz paulista que Sueth conheceu num festival de teatro, a adaptação do livro para o palco contou ainda com a assistência de direção de Flaviane Fonseca, que também assinou o visagismo do espetáculo. À elas, que são as verdadeiras donas do discurso, Danyel atribui a busca pela sensibilidade de tratar um assunto tão delicado.

 

Na estreia, o espetáculo mostrou apuro estético na concepção de seu cenário, figurino e maquiagem. A presença da banda, executando uma trilha sonora ao vivo, garantiu ares de superprodução. Em sua direção, Danyel Sueth dispôs desses elementos, criando camadas a partir de recortes precisos do texto. A narrativa fragmentada e permeada por músicas, numa sucessão de quadros em diálogo com o jogo cênico entre os atores e uma iluminação bem delineada, moldaram toda a experiência. Foi como se o palco do Carlos Gomes, de repente, se transformasse em um grande videoclipe.

 

Voltei para o Rio de Janeiro com sensações mistas. Por um lado, orgulhoso de ver um grupo conterrâneo de Alegre lotando um final de semana do principal palco de Vitória. Foi um sólido ponto de partida para um trabalho que ainda pode ser lapidado, uma vez que o teatro é uma arte viva e que possibilita constante evolução. Por outro lado, algumas angústias continuaram pairando no ar.

 

Gerar mais perguntas do que dúvidas ou deixar questões em aberto para o público completar a história, são algumas práticas comuns nas artes e no teatro contemporâneo. Aliar teatro e jornalismo, explorando inclusive dados estatísticos, é arriscado do ponto de vista estético. Um espetáculo comunica por outras vias que não a da informação. Quando a matéria jornalística ganha o palco, é como se ela não deixasse mais espaço para a dúvida.

 

Dirigir uma peça significa dialogar, fazer escolhas e tomar decisões sobre o que se deseja comunicar. É ter “vontade de dizer algo através do teatro”. E ficou bastante evidente o que aquele grupo tinha a dizer, a partir da releitura de um clássico. A angústia que pairou reside na contribuição que eu posso dar, como indivíduo, para superar o problema apresentado.

 

Para Boal, teatro e jornalismo, combinados, permitem ir além de uma simples leitura da contemporaneidade. “O teatro dá ao espectador a consciência da realidade; é ao espectador que cabe modificá-la”, escreveu em seu livro 200 Exercícios e Jogos para o Ator e o Não Ator. E agora, o que fazer com esse convite?

 

Thiago Emanuel é ator, jornalista e produtor cultural

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